Ensinamento no Dia a Dia com o Bhagavan

APRENDIZADO NA COZINHA

Bhagavan costumava ajudar a amassar lentilhas, descascar legumes e até mesmo a cozinhar. Ele se levantava muito antes do amanhecer para juntar-se a nós, na cozinha. Nós, as senhoras, costumávamos chegar ao amanhecer e Bhagavan cuidava para que tudo estivesse preparado à nossa chegada e, muitas vezes encontrávamos uma parte do nosso trabalho já feita. Para nos anteciparmos a Ele, começamos a chegar às cinco horas — Ele começou a chegar às quatro. Passamos a chegar às três — mas quando Ele viu que ficávamos sem dormir, deixou de entrar na cozinha antes do amanhecer e assim nos permitia dormir um pouco mais. Um dia, eu O vi amassando gram preto. Sempre ficávamos envergonhadas quando O víamos trabalhar, mas quando nos oferecíamos para assumir a tarefa, Ele ficava contrariado. Aquele dia, tive a coragem de pedir-Lhe que me deixasse amassar o gram e, para minha surpresa, Ele concordou: “Sim, termine-o. Estava esperando por você.” Quando terminei de moer, vi-O fervendo abóbora com curry num grande caldeirão. Era perto do alvorecer, o dia estava quente, o fogo estava quente e o vapor que saía do caldeirão era muito quente. Bhagavan estava banhado em suor. Então, percebi que foi para poupar-me desse trabalho cansativo que Ele me permitiu moer o gram. Como lamentei ter oferecido minha ajuda! A massa estava fervendo e uma porção de abóbora caiu no dedo de Bhagavan. No dia seguinte vimos uma grande bolha e, quando alguém perguntou, Ele respondeu: “Oh!, é apenas um anel. Eu quis ter alguma joia.” Assim, aprendi a não mais interferir. (Do livro Ramana Amor Supremo, compilado por Vera Carolina, p.60) 

AÇÃO SEM APEGO 

Certa vez o senhor Rangachari fez perguntas a Bhagavan sobre a ação sem apego ao resultado. Não houve resposta. Logo depois Sri Bhagavan dirigiu-se para o Monte Arunachala e alguns O acompanharam, inclusive o perguntador. Encontraram uma vara cheia de espinhos no caminho e Bhagavan a apanhou, sentou-se à beira da estrada e começou a trabalhar nela lentamente. Os espinhos foram cortados, os nós foram aplainados e toda a vara foi polida com uma folha áspera. A operação durou 6 horas. Todos estavam admirados com a bela aparência da bengala obtida de material tão rústico. Quando o grupo ia retomar a caminhada, apareceu um garoto pastor que havia perdido sua bengala e estava desolado. Sri Bhagavan imediatamente deu-lhe a bengala que acabara de fazer e continuou a jornada. O senhor Rangachari havia tido a sua resposta! (Do livro Ramana Amor Supremo, compilado por Vera Carolina, p.79)

COMO UMA MÃE PARA SEUS DEVOTOS

Bhagavan era todo o tempo rodeado pelos devotos, mesmo à noite. Ao redor do seu sofá, pessoas e até cães dormiam... Ninguém sabia se Bhagavan dormia mesmo! As duas ou três da manhã Ele estava sentado no sofá. Bhagavan jamais perturbava o sono de ninguém. Mas se alguém tentava voltar a dormir depois de ter acordado, Ele dizia que não prolongasse o sono, entregando-se aos sonhos. Com Sua bengala, cutucava-os suavemente a fim de sinalizar que levantassem. Bhagavan era realmente uma mãe para Seus devotos. (Do livro Reminiscência de Bhagavan Ramana, p.7 e 8)

ESQUILOS

Os esquilos costumavam fazer seus ninhos no teto do antigo salão. Certa vez, alguns esquilos recém-nascidos caíram lá de cima sobre o sofá de Bhagavan. Tinham os olhos ainda fechados e cada um media apenas uns poucos centímetros, eram avermelhados, de carnes frescas e muito macios. A mãe esquilo os ignorou. E agora? O que fazer? Como alimentar e cuidar de tão tenras coisinhas? Os filhotes de esquilo estavam na palma da mão de Bhagavan, Seu rosto brilhava de amor e afeição por eles, enquanto havia uma expressão de interrogação nos rostos daqueles que estavam à Sua volta. Ele mesmo estava feliz e alegre. Pediu que trouxessem algodão. Fez uma cama macia para eles; pegou também um pouquinho de algodão e torceu-o até que a ponta ficasse como a ponta de um alfinete; molhou-o no leite e pingou o leite nas pequeninas bocas. A intervalos regulares, Bhagavan repetia esse ato de compaixão. Atendeu-os com grande cuidado e amor até que cresceram e começaram a correr por ali, em volta de sua “mãe”. Sim, as afortunadas criaturinhas cresceram com Bhagavan como “mãe”! (Do livro Ramana Amor Supremo, compilado por Vera Carolina, p.64)

VIA EM TODOS SERES APENAS A SI MESMO

Tinha havido um ciclone na noite anterior e galhos de árvores tinham caído; uma árvore fora arrancada pela raiz. Bhagavan se aproximou, sentou-se no chão úmido e começou a colher as folhas. Vendo-o, outras pessoas também começaram a fazer o mesmo. Ele disse: “De outra forma, estas folhas seriam desperdiçadas, mas elas podem ser cozidas e são excelentes para a saúde”. Neste dia o rei Rammad ia visitar Bhagavan. Bhagavan também sabia disto, mas o rei chegou e o salão estava vazio. O administrador do Ashram não sabia como fazer Bhagavan voltar para o salão para conceder o Darshan (Benção através do olhar) ao rei. Bhagavan, imperturbável, continuou ocupando-se de sua “tarefa”. O rei teve que vir até Bhagavan, que continuava a desfolhar a árvore, sem se importar com o que se passava à sua volta. O rei estava impressionado por ver um Sábio absorto em “atividade” (ação). Por amor, Ele englobava em Si todo o Universo; pela convicção da experiência via em todos, seres animados ou inanimados, apenas a Si Mesmo. (Do livro Puroshottama Ramana (Ramana – O Espírito Supremo), Sri V. Ganesan, traduzido por Leila Góes, p.5)

NÃO É SUFICIENTE?

“Um doador de bênçãos para os devotos. Mestre dos Mantras; como a árvore celestial, Ele suaviza a angústia daqueles que procuram a sombra de seus pés” (Sri Ramana Gita, Canto 18 – Verso 15) Bhagavan raramente saía antes de meia noite para atender ao chamado da natureza. Uma noite Ele teve que fazê-Lo devido a um problema de estômago. Um devoto que estava de pé, próximo, notou que naquele dia Bhagavan levou um tempo muito maior do que o usual. Então, no escuro, ele se aproximou de Bhagavan. Escutou um som peculiar, como “slop, slop, slop”. Bhagavan estava falando com alguém: “Basta! Basta! Você ainda não está satisfeito?” O atendente viu Bhagavan sentado desconfortavelmente, abaixado, e um cachorro lambendo-O de alto a baixo – alegre e vigorosamente! O cachorro era magro, esquelético e estava mal-cheiroso com feridas, doente e muito feio de se olhar! Apreensivo que o atendente levasse o cão para fora, Bhagavan justificou: “Ele estava muito interessado em mostrar-Me sua afeição todos esses dias. Pobre companheiro! Ele era sempre posto para fora antes que conseguisse fazê-lo. Hoje ele me pegou no escuro. Seu intenso amor ele comunicou lambendo-me, para alegria do seu coração”. Bhagavan levantou, com lágrimas nos olhos, deixou o cachorrinho dizendo: ”Porumada” (não é suficiente? ). Posso ir agora? No dia seguinte o cachorro foi encontrado morto. Ele “morreu”? Ele foi liberto? (Do livro Puroshottama Ramana (Ramana – O Espírito Supremo), Sri V. Ganesan, traduzido por Leila Góes, p.23)

A PERSISTÊNCIA DE UM ESQUILO

Você nem imagina quanta liberdade nosso irmão esquilo tem com Bhagavan! Dois ou três anos atrás, entre os esquilos, havia um muito ativo e travesso. Um dia aconteceu que quando ele veio buscar comida, Bhagavan estava lendo e, portanto, ocupado e por isso demorou um pouco a dar comida para ele. Esse indivíduo travesso não comia nada a menos que o próprio Bhagavan colocasse na sua boca. Talvez por causa de sua irritação pela demora, ele abruptamente mordeu o dedo de Bhagavan, mas Bhagavan ainda lhe ofereceu mais. Bhagavan achou graça e disse: “Você é uma criatura malcomportada! Você mordeu meu dedo! Não vou lhe dar mais comida. Vá embora!” Assim dizendo, parou de alimentar o esquilo por alguns dias. E aquele indivíduo ficaria quieto? Não, ele começou a pedir perdão a Bhagavan rastejando para lá e para cá. Bhagavan colocou os amendoins no peitoril da janela e no sofá e disse-lhe que se servisse. Mas não, ele nem mesmo os tocaria. Bhagavan fingiu ficar indiferente e não ter notado. Mas ele trepou pelas pernas de Bhagavan, pulou no seu colo, trepou até seus ombros e fez muitas coisas para chamar atenção. Então Bhagavan disse a todos nós: “Olhem, este indivíduo está me pedindo que perdoe sua travessura de morder meu dedo e desista de minha recusa em alimentá-lo com minhas próprias mãos.” Alguns dias se passaram e Bhagavan finalmente teve que admitir sua derrota por causa de sua infinita misericórdia por seus devotos. Ocorreu-me então que é assim que os devotos alcançam a salvação, através da persistência. (Do Livro Cartas do Sri Ramanasraman Vol. 1, Suri Nagama, traduzido por José Stefanino Vega, p.17)

NENHUM DESPERDÍCIO

Recentemente Bhagavan escreveu alguns versos. Ele os estava escrevendo em pedaços de papel áspero que absorvia tinta; como eu sentia pena de que as divinas letras que pareciam um colar de pérolas tivessem que ser escritas em pedaços de papel áspero, disse-lhe: “Seria melhor se fossem escritos num caderno.” “Está tudo bem”, respondeu Bhagavan, “se eu escrever num caderno alguém reconheceria minha letra e o levaria embora. Assim não há esse temor. O Swami é propriedade comum de todos.” E recusou-se aceitar minha sugestão.... Era por volta das nove horas da manhã. Depois de ter sido recebida a correspondência, Bhagavan começou a ler o jornal. Encontrou nele um espaço em branco de umas quatro polegadas. Começou a cortá-lo e dobrá-lo. Estava sorrindo para mim, mas eu não conseguia entender por quê. Depois de destacar o pedaço, dobrou-o cuidadosamente e, colocando-o na estante, disse: “Olhe eu vou usar este papel para meus escritos.” Eu repliquei: “Então isso é para nos dar uma lição. Bhagavan está sempre nos dando lições, mas nós não as aprendemos.” Bhagavan sorriu e ficou calado. (Do Livro Cartas do Sri Ramanasraman, Vol. 1, Suri Nagama, traduzido por José Stefanino Vega, p.98)

ISTO É PARA BHAGAVAN

Uma menina de 5 ou 6 anos de idade, filha de um devoto residente, em Ramana Nagar, trouxe duas frutas do seu jardim e as deu a Bhagavan. Ela costumava trazer doces e frutas de vez em quando e os dava a Bhagavan. Em todas as ocasiões Bhagavan dizia: “Para que isto?” Mas ele as comia assim mesmo. Ontem, ele as devolveu e disse: “Leve estas frutas para casa, corte-as em pequenas porções e reparta com todos os outros dizendo: isto é para Bhagavan, isto é para Bhagavan, isto é para Bhagavan... e você também coma. Bhagavan está dentro de todos. Por favor vá.” A menina foi embora desapontada. Olhando para mim Bhagavan disse: “As crianças tem grande prazer fazendo essas coisas. Se dizem que vão dar alguma coisa ao Swami, sabem que elas receberão também algo nisso. Quando eu estava na colina, garotinhos e garotinhas vinham a mim sempre que tinha um feriado. Costumavam pedir dinheiro a seus pais e traziam pacotes de doces, biscoitos e coisas assim. “Se eles diziam que trariam algo para o Swami, sabiam que ganhariam algo também. Tudo certo se for feito de vez em quando. Mas porque todos os dias? Se todos eles comerem não equivale isso a comer também Eu?” (Do Livro Cartas do Sri Ramanasraman, Vol. 1, Suri Nagama, traduzido por José Stefanino Vega, p.138)

IGUALDADE

Ontem, uma macaca com seu filhote parou na janela do lado do sofá de Bhagavan. Bhagavan estava lendo algo e não percebeu. Daí a pouco, a macaca guinchou e um dos assistentes tentou afugentá-la gritando, mas ela não ia embora. Bhagavan olhou e disse: “Espere, ela veio para mostrar o filhote para Bhagavan; todas as outras pessoas não trazem seus filhos para mostrá-los? Para ela, seu filhote é igualmente querido. Veja como ele é novinho.” Assim dizendo, Bhagavan voltou-se para ela e disse em tom meigo: “Olá! Então você trouxe seu filhinho? Muito bom!” E dando a ela uma banana mandou-a embora. (Do Livro Cartas do Sri Ramanasraman, Vol. 2, Suri Nagama, traduzido por José Stefanino Vega, p. 19) O

MESTRE ACEITA

A Princesa Prabhatavi Raji, logo depois do seu casamento, veio com seu marido para receber as bênçãos de Bhagavan. Trouxe duas bonitas grinaldas de rosas e junto com seu marido queria colocá-las em volta do pescoço de Bhagavan. Tais coisas eram estritamente proibidas. Todavia, por causa de seu intenso amor, ela insistiu em seu pedido e levou as grinaldas até Bhagavan que estava sentado no sofá. Bhagavan, enquanto recusava as grinaldas, sugeriu, “Coloque-as no santuário da Mãe”. Prabhavati ficou desapontada e, antes de partir, colocou as grinaldas sobre o sofá, ao abaixar-se para prostrar-se. Ela ergueu-se, pegou as grinaldas e saiu do salão, chorando amargamente. Passado algum tempo, Sri Kunju Swami, a modo de consolo, mostrou a ela a certa distância uma notável visão. Bhagavan estava catando, uma a uma, as pétalas que tinham caído das grinaldas sobre o sofá e, vagarosamente, as estava colocando em sua boca uma após outra! Kunju Swami disse a Princesa: “Veja! Como você é afortunada! Você ficou desapontada porque Bhagavan não aceitou as grinaldas de rosas, mas agora suas rosas serviram como Seu alimento. Isso não é uma verdadeira aceitação?” Ela ficou imensamente contente e suas lágrimas de angústia tornaram-se lágrimas de alegria! (Do livro Reminiscência de Bhagavan Ramana, p.6)

O INABALÁVEL RAMANA

“Em Tiruvanamalai o verão dura dez meses” era o ditado favorito dos devotos do Ashram. Durante maio-junho o sol estava com toda força; a terra queima, por assim dizer. Bhagavan jamais usou calçado após sua chegada a Tiruvanamalai. Depois do almoço, todos os dias, caminhava até Palakothu entre meio-dia e meio-dia e meia. O caminho árido, arenoso, tornaria impossível caminhar descalço, todavia, Bhagavan nunca mudava o passo do Seu Caminhar, quer chovesse muito ou queimasse o sol. Ele caminhava devagar, mas dizia ao atendente que O seguia: “Corra, corra e refugie-se sob aquela árvore. Coloque sua roupa de cima sob seus pés e fique um tempo sobre elas.” Insistia para que o assistente assim o fizesse, enquanto Ele próprio seguia adiante, vagarosamente! (Do livro Reminiscência de Bhagavan Ramana, p.7)

NUNCA FALAR MAL DE TERCEIROS

Bhagavan nunca gostou que as pessoas falassem mal de terceiros e tomava a defesa da parte acusada. Uma ocasião, uma senhora devota rica adotou um garoto abandonado, mas após algum tempo ele desapareceu com algumas de suas joias. Quando ela fez queixa a Bhagavan, ele disse: “Suas joias a fizeram perder seu garoto.” (Do livro Reminiscência de Bhagavan Ramana, p.21)

O MESTRE DA COMPAIXÃO

“O maior momento em minha vida foi quando tive o último Darshan (Benção através do olhar) de Sri Bhagavan. Aconteceu assim. Eu estava viajando por toda a Índia com meu chefe, um capataz rigoroso. Uma carta de Visvana chegou repentinamente: “Não demore. Venha a Tiruvanamalai logo.” (*) Corri para Arunachala e Visvana me fez entrar rapidamente na fila que esperava para ter o Darshan de Sri Bhagavan, o Mestre da Compaixão derramando pura Bem-Aventurança e Graça em abundância! Visvana sussurrou apenas movendo os lábios: Sivaraman, Sivaraman, como se estivesse me apresentando a Sri Bhagavan. Essa Colina de Amor fez um aceno de reconhecimento quase imperceptível. O propósito de minha vida está preenchido com esse simples aceno. Eu sou reconhecido, eu sou aceito, eu estou salvo! (*a “morte” de Sri Bhagavan estava próxima) (Do livro Reminiscência de Bhagavan Ramana, p.30 e 31)

VIDA SIMPLES

Uma vez, vindo de Bombaim, eu trouxe alguns papéis caros para Bhagavan. Um devoto me perguntou por que havia trazido uma coisa tão cara. Eu disse: “Achei que precisavam de papel. Podia trazer um baratinho? Bhagavan interveio e disse: “Mas por que trazer algo afinal: eu já tenho tudo de que necessito!” Senti-me muito desanimado e comecei a pensar que o que Bhagavan realmente necessitava era uma linda caixa de prata para os amendoins que Ele reservava para seus amigos pássaros e esquilos. A pequena lata que ele tinha estava velha e feia. Mal o pensamento cruzara a minha mente alguém trouxe uma caixa de prata que era exatamente igual à que eu tinha em mente e ofereceu-a a Bhagavan. Bhagavan nem mesmo a tocou. “O Que” Ele exclamou, “Uma caixa de prata para mim. Não. Por favor leve-a de volta. Olhe para isso: Uma caixa de prata para mim! O que farei eu com uma caixa de prata?” Enquanto dizia isso tudo Ele olhava para mim como que dizendo “O mesmo teria acontecido a você e sua caixa de prata!” Bhagavan vivia uma vida simples e desaprovava o luxo e a pompa. Uma boa lição para todos nós. (Do livro Reminiscência de Bhagavan Ramana, p.42)

A DOR É MINHA

Os macacos eram um verdadeiro incômodo naquele tempo. Eles causavam estragos com os legumes e outras coisas trazidas pelos devotos. Quando nos queixamos a Bhagavan, Ele disse: “Não faz muitos anos aqui era lar dos macacos. Nós chegamos, limpamos o solo, construímos casas e expulsamos os macacos. Quem são os culpados, eles ou nós? Se eles nos causam alguns problemas, não podemos suportá-los tranquilamente?” Bhagavan era realmente afeiçoado a eles. Quando um atendente bateu nos macacos por roubarem amendoins, Bhagavan repreendeu-o, dizendo: “Você não está batendo nos macacos, está batendo em mim. A dor é minha!” (Do livro Reminiscência de Bhagavan Ramana, p.42)

UNIDADE

Disseram a uma devota que o Maharshi sabia tudo o que se passava na mente das pessoas à Sua volta, mas ela não acreditou, de pronto, em tal assertiva. Entretanto, certa tarde em que ela estava sentada no canto mais distante do salão, lendo a tradução de uma série de aforismos escritos —em sua opinião— numa linguagem floreada e artificial e começou a sentir-se entediada e um pouco irritada, quando, de repente, um dos devotos chegou até ela com um outro livro nas mãos e disse: “O Maharshi mandou-me entregar-lhe este livro. Ele acha que será mais apropriado para o seu tipo de mente”. E era. Como podia o Maharshi saber o que ela estava lendo? Ela estava sentada distante Dele, com várias pessoas entre eles, bloqueando Sua linha de visão, e todos os livros do Ashram eram encapados com papel pardo, e pareciam exatamente iguais. A partir de então, mais atenta, ela começou a reparar que muitas vezes Ele respondia a uma pergunta que apenas começava a ser formulada em sua mente. Percebeu então que sendo UM com todos, Ele realmente conhecia-os, conhecia seu interior, melhor do que eles próprios! (Do livro Ramana Amor Supremo, compilado por Vera Carolina, p.76)

O SADHU

Numa ocasião importante foram feitos arranjos para alimentar os pobres no Ashram. Quando a hora da refeição se aproximava e as pessoas estavam se encaminhando para o refeitório, alguém gritou, com autoridade, que não seria permitida a entrada de sadhus. Conseqüentemente alguns sadhus pobres foram levados para outro lugar. Quando todos já estavam sentados, os cozinheiros queriam começar a servir, mas o principal convidado, Sri Bhagavan, não podia ser encontrado em lugar nenhum. Começaram a procurá-lo em todas as direções, e finalmente um grupo percebeu que Ele estava sentado sob uma árvore frondosa, a alguma distância do Ashram. Pediram-Lhe que voltasse ao Ashram para a refeição, mas Ele replicou: “Vocês não querem que sadhus permaneçam lá. Desde que eu também sou um sadhu, saí de lá, como vocês desejavam”. Sri Bhagavan identificava-se com os mais humildes, e jamais aceitou nenhum privilégio. Ele costumava corrigir os que erravam —não mostrando zanga ou desgosto— mas pelo exemplo, claro e direto. (Do livro Ramana Amor Supremo, compilado por Vera Carolina, p.77)

CUIDADO

Certa vez, um senhor alemão veio morar próximo ao Ashram, na vizinha Palakothu. Ele gostava de encontrar Bhagavan durante Sua caminhada à tarde. Um dia, o carteiro estava batendo na porta da cabana deste alemão durante longo tempo, fazendo barulho suficiente para incomodar a todos nós, que morávamos nas cabanas vizinhas. Juntamo-nos ao carteiro batendo na porta até que Bhagavan se aproximou e perguntou por que estávamos todos à porta da cabana do alemão. Dissemos-lhe que havia um telegrama para o alemão, mas que não estávamos conseguindo fazer com que ele escutasse. Bhagavan riu e disse: “Eu sou o culpado! Certa vez ele se queixou de que o barulho perto de sua cabana o perturbava e impedia que conseguisse fazer meditação longa e profunda. Peguei um pouco de cera de abelhas, misturei com algodão e fiz tampões para seus ouvidos. São completamente à prova de som”. Como estivesse na hora em que usualmente se encontrava com Bhagavan, o alemão, após remover os tampões dos ouvidos, abriu a porta da cabana. Ficou surpreso ao ver tantas pessoas à sua porta junto com Bhagavan. E nós aprendemos a lição —desde então fizemos, também para nós, tais tampões de cera de abelhas, a fim de colhermos os benefícios de uma meditação não perturbada! (Do livro Ramana Amor Supremo, compilado por Vera Carolina, p.90)

COZINHEIRO ESPIRITUAL DE ALMAS

Sri Bhagavan costumava ir à cozinha às 4 horas da manhã e começava a descascar e cortar legumes. Um ou dois de nós o ajudávamos. Às vezes, a quantidade de legumes nos assustava. Bhagavan sempre dava um jeito de cortar muito mais e mais rápido que nós. Nessas ocasiões, na nossa impaciência para terminar a tarefa e tentar tirar mais um soninho, olhávamos constantemente o relógio. Bhagavan sentia nossa impaciência e dizia: “Por que olham para o relógio?” Nós tentávamos enganar Bhagavan dizendo: “Se pudéssemos terminar o trabalho às 5 horas, poderíamos meditar por uma hora”. Bhagavan replicava suavemente: “O trabalho deve ser feito atentamente. Outros pensamentos são o obstáculo, não a quantidade de trabalho. Fazer o trabalho designado é, em si mesmo, meditação. Vão em frente e executem a tarefa com plena atenção.” Bhagavan ensinava-nos, assim, a importância do trabalho feito com correção e atenção. Bhagavan não nos ensinava apenas o Caminho da Vichara, ensinava-nos também como viver. Nós procurávamos observar todas as Suas ações e aprender com elas, de muitas maneiras. Ele nos ensinou como poderíamos viver felizes em qualquer lugar do mundo. Considero-o também um cozinheiro espiritual de almas, pois assava nossos egos e os servia a Arunachala. (Do livro Ramana Amor Supremo, compilado por Vera Carolina, p.91)

PODE SE CHOCAR UM OVO QUEBRADO?

Eram as primeiras horas da manhã. Bhagavan havia tomado seu banho e agora ia para o canto mais afastado do Salão para pegar sua toalha, que estava pendurada em um bambu suspenso horizontalmente, numa das extremidades do qual uma pardoca havia construído seu ninho e posto nele 4 ovos. No momento de pegar sua toalha, a mão de Bhagavan esbarrou no ninho que balançou violentamente fazendo com que um dos ovos caísse no chão e se quebrasse. Consternado, Bhagavan chamou seu assistente: “Olhe, olhe o que eu fiz!” Assim dizendo, Bhagavan pegou o ovo quebrado em Suas mãos, olhou-o com olhos extremamente ternos e exclamou: “A pobre mãe ficará tão triste e ferida, talvez até zangada comigo por ter causado a destruição do seu esperado pequenino! Poderá a casca quebrada ser emendada novamente? Vamos tentar!” Assim dizendo Ele pegou um pano, molhou-o, enrolou-o em volta do ovo quebrado e recolocou-o no ninho. A cada 3 horas Ele pegava o ovo quebrado, removia o pano, colocava o ovo na palma de Sua mão e olhava para ele por vários minutos. O que Ele realmente estaria fazendo naquele momento? Como saber? Estaria Ele enviando com aqueles maravilhosos olhares de Graça raios de energia vivificante para o ovo quebrado, colocando até mesmo novo calor e vida nele? E ele continuava dizendo: “Deixa a quebradura ser curada! Não pode ser chocado mesmo assim? Permita que o pequenino venha de dentro deste ovo quebrado! Esta solicitude ansiosa e terna de Sri Maharshi continuou por uma semana. Assim, o ovinho permaneceu em seu ninho com seu pano-atadura molhado, sendo contemplado com o divino toque e o olhar bondoso. Ao final da semana Ele apanhou o ovo e, com o espanto de um escolar, exclamou: “Vejam que maravilha! A rachadura se fechou e a mãe ficará feliz por poder chocar seu ovo, afinal! Meu Senhor libertou-me do pecado de causar a perda de uma vida. Vamos aguardar que o pequenino apareça!” Poucos dias se passaram e afinal, em uma linda manhã Bhagavan descobriu que o ovo havia sido chocado e que o pequeno pássaro tinha nascido. Ele pegou o pequenino em Suas mãos, acariciou-o, afagou-o com Sua mão suave e mostrou-o a todos os presentes. Ah!, quanto cuidado pelo significado da Criação! As lágrimas de ansiedade à quebrada casca do ovo foram substituídas pelas lágrimas de alegria pelo nascimento do pequenino. Haveria um coração de bondade mais doce do que este?” (Do livro Ramana Amor Supremo, compilado por Vera Carolina, p.94)

AÇÃO SEM APEGO

Certa ocasião, perguntei a Sri Bhagavan o método correto para Atma-Vichara (Autoinvestigação) e Ele respondeu: “A todo o momento e sob quaisquer circunstâncias devemos constantemente lembrar nossa natureza (EU SOU). Recordando isso enquanto realizamos nossas obrigações no mundo, devemos fazê-lo sem o menor apego às ações realizadas, ou aos seus resultados. Quando esta atitude é fortalecida o aspirante sente certeza de que está fazendo progresso em sua shadana (prática). Esta deve ser praticada por todos.” Por exemplo, Bhagavan era Ele próprio muito ativo e fazia todo tipo de trabalhos. Ele emendava folhas, fazia kamandalams, dava acabamento a cajados, ajudava na cozinha, moendo, preparando massas, cortando legumes, e até cozinhando. Ele agia como parteira para cadelas e macacas. E fazia tudo isso perfeitamente e sem o mínimo apego. A prova de que a pessoa está realizando os atos sem apego é que sente que é o Senhor que a está usando para que as coisas sejam feitas e muito bem feitas. Todo seu SER diz: O Supremo fez estas coisas através de mim. Tal humildade é a marca da maturidade espiritual. (Do livro Reminiscência de Bhagavan Ramana, p.9 e 10)