A História de Chandra Jay

O céu já preparava a noite quando o Sábio avistou Chandra Jay, às margens do Ganges*. Durante todo o dia, o camponês ali estivera – apreensivo, pensativo e absorto no estafante trabalho de deslocar as pedras próximas à nascente por entre os Himalaias.

- O que fazes aí, jovem Chandra Jay, a profanar o Sagrado Rio? Por acaso não percebeste o que tentas fazer? disse-lhe o Mestre.

- Amado Sábio, apenas tento dar ao curso do rio uma direção que em nada ameace com água meu pequeno quinhão de terra. Que pode haver de erro nisso?

- Chandra Jay, abre teus olhos de ver e tuas mãos cessarão tal tentativa. Que sabes tu dos mistérios do rio para te julgares capaz de conduzi-lo pelo poder de obstáculos? Se o Ganges tocar teu solo, deixarás que a terra se vá e acolherás a água. Sábio é respeitar o ir e vir do Jogo Cósmico. Sábio é não tentar reter a terra, mas sim fluir com o rio. Sábio é honrar o suceder, e não tentar impor obstáculos ao que virá, Filho meu! Esta é a lição do rio: VIVER O CURSO.

Chandra Jay contemplou a Lua cheia que já se refletia nas águas sagradas e, deixando-se encantar por aquele momento, suspirou, dizendo:

- Compreendo agora, Grande Pai. Minhas poucas pedras não poderiam alterar o destino do rio. Todavia, minha negativa em deixá-lo fluir, encheu de obstáculos minha compreensão de Seu Caminho Sagrado. Querendo reter a pouca terra de que disponho, neguei-me ao aprendizado do incessante caminho das águas, por temor. Corro assim o risco de perder a terra e não conhecer o mar...

Novamente o Mestre sorriu, e o brilho de Seus olhos sobre os negros cabelos do jovem eram como dois Ganges de Graça.

- Não, Chandra Jay, não foste tolo. Tinhas apenas olhos estáticos, enquanto tudo a tua volta é incessante movimento. Deixa as pedras com que construías obstáculos e assenta teu cansaço nas margens do Ganges. Nada digas, Chandra Jay, nada perguntes ou tentes deter. Apenas ama a correnteza do rio. É chegada tua hora, Chandra Jay, já estás pronto.

E somente a lua viu, Mestre e discípulo, em Unidade com o rio, tornarem-se MAR!

*Ganges – rio sagrado da Índia. Segundo a crença, é de onde toda a vida emana.